terça-feira, 21 de abril de 2015

Egoísmo

Há quem veja os escritores como seres generosos, como bocas que se emprestam às vozes de uma geração. Ledo engano de quem nunca empunhou uma pena. Poucos seres são tão egoístas quanto os poetas e os contadores de histórias: ora gritam suas mentiras, ora sussurram suas verdades, não pela necessidade que o outro tem das le-las, mas unicamente pela necessidade que o autor tem de dize-las.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Pálido reflexo


A foto antiga, que desbota
É semelhante à foto nova
Momentos antes de se revelar

Em ambas é difícil definir
Na frágil escrita luminosa
O que já foi e o que virá

São como formas que se fundem
Paisagens se confundem
Nos mudos mistérios a se decifrar

É como o tempo que se estende
O passado se faz presente
E o futuro aqui está

A foto é corpo físico
Da luz imaterial
Pálido reflexo
Da verdade e do real

Mas paralelo a tudo isso
A foto ainda é registro
Do que teimamos dar o nome de real

Porque a foto do meu rosto
Não sou eu
Mas sim um outro ser, ficcional

A foto do meu rosto
É cópia imprecisa
Do ser que sou, total

Três vezes longe da verdade
A foto encerra apenas uma parte
De parte do que é real

A foto é corpo físico
Da luz imaterial
Pálido reflexo
Da verdade e do real

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A árvore


Hoje eu sou árvore. Tenho tudo que se espera de uma árvore: sou alta, frondosa, colorida. Tenho raízes profundas, um tronco largo e firme, frutos e flores que as aves vem visitar. Quando as pessoas me encontram, olham pra cima e se admiram, e me abraçam, e me veem como símbolo da vida. Sei que planejam me cortar um dia, imaginam o meu corpo em outra forma, olham pra mim e enxergam móveis, mesas, cadeiras, armários. E eu ficaria feliz se meu destino fosse esse.

Mas os que me olham e se admiram dessa maneira, aqueles que envergam o corpo para me ver lá no alto, banhada de sol e acariciada pelos ventos, não entendem ou não se recordam que o meu berço é a sombra, o meu passado é a queda, o declínio e a morte, por assim dizer. É que eu não nasci árvore: eu nasci semente e habitava as alturas antes de conhecer o chão. Eu era pequenina, mas ainda lembro de ver a paisagem acima das copas, a imensidão da floresta cortando o horizonte e os raios dourados do entardecer sobre nós.
Até que um dia o tempo mudou e o vento se fez implacável. O galho em que eu habitava cedeu. Eu só me lembro que caí, simplesmente caí, me desprendendo de quem eu era e me lançando das alturas sem saber o que seria de mim dali para frente. Por alguns segundos, vi meu passado e meu futuro diante de mim. O vento me afastou de minha origem e eu só torcia para aguentar o tranco. Aguentei.

Aos poucos fui me dando conta de minha situação: eu estava sozinha, à sombra de tudo e longe da vida que eu conhecia. Tudo o que eu queria era voltar à altura em que estava. Sobretudo, eu sentia falta da luz do sol me tocando e, dentro de mim, de alguma forma, eu sabia o que era preciso fazer para isso. Fui quebrando a minha casca, abrindo mão da minha proteção para lançar na terra as minhas primeiras raízes. Foi crescendo para baixo, me dividindo e me multiplicando em mil caminhos que eu aprendi a crescer para cima. E só depois desse esforço inicial eu entendi o quão longa seria minha jornada de volta.

Aos poucos fui me virando como pude. Lançava galhos aqui e ali para demarcar o meu espaço. Vivia do pouco sol que me restava na densidade da floresta. Às vezes ainda precisava lidar com um ou outro animal, que eram hábeis para desviar das árvores maiores, mas não se importavam em destruir algumas menores no caminho. Aprendi a me curar quando preciso e pensei seriamente em criar espinhos ou um tipo de fruto venenoso, mas não era exatamente da minha natureza. Soube disso logo que  lancei minhas primeiras flores e um zilhão de criaturinhas veio me visitar e me dar um cheiro. Minha vida começou a fazer mais sentido pra mim naqueles dias.

Hoje eu sou árvore. Só eu sei o que eu passei e o que vivi entre cada anel que você vê na largura do meu tronco. Antes que você pudesse me encontrar, olhar para cima e me abraçar como se eu fosse um velho amigo, eu precisei me libertar, precisei cair e me erguer com forças que eu nem sabia que existiam em mim. E mesmo que um dia eu seja lançada ao chão uma última vez e transformada em tantas coisas que eu nada se parecem comigo, ainda assim serei feliz porque sou árvore e vejo o mundo por cima das copas. As pessoas pensam que o habitat das árvores é o solo, mas aqui vai uma confissão: não é. A terra é o nosso meio de chegar às alturas. A luz é que nos guia.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O tamanho da escuridão

‎acredito que foi Faulkner quem disse isso, acender um fósforo no meio da noite num descampado não permite ver nada mais claramente, apenas ver com clareza toda a escuridão em volta. A literatura faz isso, mais do que qualquer coisa. Não ilumina, exatamente, mas como o fósforo, permite enxergar o tamanho da escuridão que existe.


Javier Marías

sábado, 28 de janeiro de 2012

Eu seria um poeta...


Eu seria um poeta se tivesse em minhas mãos a chave e adentrasse o reino das palavras, onde as mesmas não tem forma nem estado físico definidos. Onde não existe tempo, nem ordem. Existe apenas sons e silêncio, no reino das palavras. Apenas música.


Eu seria um poeta se pudesse moldá-las como se faz ao barro, ou esculpi-las como se faz ao ouro ou ao marfim. E pudesse transformá-las em minhas torres, meu castelo, meu abrigo e casa do campo. E fizesse delas minhas escravas ou o ar que eu respiro, tanto faz. Mas que tivesse com as malditas palavras uma conexão tão forte que as fundisse aos meus pensamentos e não precisasse mais que elas significassem algo, nem fossem cópias da cópia de nada, apenas idéia, pura, materializada.


E então escreveria com tintas invisíveis e mesmo o leitor mais desatento perceberia, nas folhas em branco, as cores vivas das paisagens elíseas, seus aromas e sabores, a brisa suave e o sol ameno do entardecer. E veria a si mesmo ali refletido, como eu veria a mim quando escrevesse. Pois eu seria um poeta e minha arte falaria às almas.


Mas eu não tenho as chaves do reino e nem falo às almas, pois não sou poeta. E nem posso querer ser, pois estes não se forjam, não se criam, não se formam, simplesmente: são filhos de mulheres com as forças do reino, que misticamente se infundem em úteros virginais. Não posso querer ser nada, meu fado, a esse respeito, já é bem conhecido. Fora isso, persigo sonhos. Bato à porta. Bato à porta. Bato à porta.

domingo, 27 de março de 2011

O GIGANTE

Seguindo a trilha de meus antepassados, desbravei a densa selva que protegia a entrada da caverna. O percurso em aclive não foi fácil. Tive que enfrentar bestas imensas que coloquei no meu caminho e suportar as árvores que me chicoteavam quando eu passava, rude, por elas. Venci o medo e a solidão. Sobretudo, venci a mim mesmo nas horas severas nas quais tudo queria fazer-me desistir, buscando forças nos pensamentos e sonhos sobre dias de glória eterna. Sabia que voltar atrás era impossível. A vila no meio do vale, onde a luz quase não alcança, já não era mais uma opção. Eu precisava realizar meu destino, minha jornada, minha sina: o gigante.


Diziam que a criatura habitava o interior da caverna no alto da montanha. Atribuíam-lhe poderes e mistérios. Diziam que estava adormecido e que seu sono durava muitas gerações. Eu queria encontrá-lo, exibi-lo para o mundo e mostrar que eu era um homem de valor. Queria que, quando ouvissem meu nome, dissessem “ele despertou o gigante e mudou nossa história”. Foi minha motivação, no começo. Mas os dias na selva me domaram esses instintos de orgulho e vaidade. Na verdade, se eu me deixasse levar somente por esses sentimentos, não teria agüentado nem a primeira noite. Jamais teria vencido tantos obstáculos. Foi somente aos poucos que eu me dei conta de que já não fazia mais tanto esforço em prol de um nome ou de um título, coisas que já me importavam menos. Havia algo de superação no que eu fazia, uma descoberta de mim mesmo, como homem e como herói.


Foi assim que eu cheguei à caverna: portando uma tocha a iluminar os arredores e o sentimento de heroísmo, nada além. Havia enfrentado desafios suficientes na selva para saber que não preciso mais provar nada para os outros, estar ali já bastava. Segui em frente pelas sombras interiores, ouvindo somente o eco de mim mesmo, minha voz repercutindo pelas paredes, minhas palavras se voltando contra mim o tempo todo. Do gigante, não vi sinal. Mas encontrei um fio d’água, no qual refresquei minhas feridas e meu cansaço, e cheguei a uma espécie de lago, onde parei.


A luz de minha tocha criou na água um espelho e meu rosto eu quase não reconheci. Havia dias não me olhava assim tão limpidamente e, narciso às avessas, passei a observar tudo em mim que não gostava. As cicatrizes que redesenharam minha face, as marcas do tempo e o olhar diferente eram conseqüências do esforço hercúleo que envolveu minha jornada. Meu último trabalho era encontrar o gigante.


Mas foi ele que me encontrou. Quando menos percebi, vi a minha frente aquele ser imenso que olhava-me sem se abalar. Tinha olhos como os meus, mãos iguais às minhas, mas muito maiores. Tinha dentes e sorriso. E ele sorria. Aproximou-se de mim o meu destino, assumiu a tocha de minhas mãos e, a seguir, me tornou seu alimento. Nem sequer ofereci resistência. Estava extasiado com meu próprio feito, o gigante estava ali, à minha frente, desperto e muito vivo. A vila receberia sua visita em breve e eu estaria lá com ele. Eu era parte dele. Eu era o gigante agora.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Insônia

Acordei era ainda noite escura e deveria ter-me dado conta de que não voltaria a dormir. Tentei ficar quieto, mantive os olhos fechados. Achei que seria cômodo simplesmente alimentar um pouco mais minhas quimeras oníricas. Mas o momento foi indiferente à minha própria indiferença e o esforço em não fazer nada de nada adiantou.


Fiquei deitado pensando nas coisas que fiz e, principalmente, nas que tinha que fazer. Fui tomado por um certo sentimento de urgência, uma ansiedade que não me deixava relaxar mais uma vez. Virei de um lado para o outro buscando um lugar, mas minha mente não quis se assentar no travesseiro. O sono me abandonara e eu abandonei o leito após múltiplos movimentos de insatisfação.


Não demorou muito meus olhos passaram a enxergar nas sombras alguma claridade a me guiar. Quis acender depressa as luzes. Quis despertar aquela que ao meu lado dormia o sono dos abençoados, mas ela me repreendeu duramente, mesmo sem despertar de fato. Restou-me apenas tatear as trevas de meu apartamento, minhas por conseqüência, até alcançar a janela para o mundo. Um mundo em preto e branco. Luz noturna, céu de chumbo. E silêncio.


Vi janelas incontáveis. Cortinas fechadas. Vidros, grades, sinais de reclusão. Uma população inteira encarcerada em seu mundinho íntimo com o corpo imóvel e os sentidos dormentes. Fiquei pensando em quantos sonhos eram sonhados. Em quantas pessoas se sentiam naquele momento em paisagens intraduzíveis. Inexplicáveis. Ou em quantos enfrentavam o terror noturno de um pesadelo. O corpo paralisado, a boca aberta. Como quem grita sem emitir som.


Foi quando eu vi um movimento. Alguém por trás das janelas não estava dormindo. Alguém que vive perto de mim, alguém que eu nunca iria encontrar ou conhecer, arrancou de mim meu sentimento de solidão. Éramos pelo menos dois a observar o céu se tornar cada vez mais azul. Passei então a imaginar atrás das janelas uma multidão de estranhos conhecidos que não conseguiam mais dormir. Resignados, viemos todos para janela esperar o tempo cumprir o seu papel.


Aos poucos o céu foi ficando mais azul e as nuvens se tingiram de um tom de rosa alaranjado sem igual. O dia começava a raiar em frente aos nossos olhos e eu fiquei pensando se ele não estava atrás do horizonte esperando platéia para o seu show. Não sei que comoção me tomou. Senti-me parte de algo grandioso. Sublime. Minha ansiedade deu lugar uma satisfação de dever cumprido. Estava em paz.



Mais tarde, enquanto saíamos para o trabalho, disse à minha mulher que ela perdeu o mais belo nascer do sol que já existiu.


—Se foi assim tão lindo, porque não me chamou para ver também?


—Eu tentei te acordar, mas você não quis. Te dei o tempo que você precisava.


—Sei. E posso saber por quê você acordou tão cedo.


A resposta só me veio naquele momento. E ela, um pouco zonza de sono, ouviu sem entender:


—Eu acordei mais cedo para fazer nascer o dia.